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"So it Begins..."

Que sabemos uns dos outros? 

Não sei, nem creio que possa vir a saber, a resposta a esta questão. Mas sinto cada vez mais necessidade, fruto da doença que me vai encurtar os dias, de deixar algo que me identifique, que reflita, ainda que pobremente, quem sou e o que vivi. Será um egocentrismo que não me fica bem, uma forma de escapar á dura realidade ou uma fuga ao esquecimento. Sim, talvez, mas perdoem desde já a minha humana franqueza e fraqueza, pois a visão da mortalidade produz coisas em que raramente pensamos. Sou um projecto inacabado, mas gostava de deixar por aqui algo que seja pessoal, transmissível. Assim espero, e estas palavras, não possuem ambição alguma além dessa. Nunca fui ambicioso, não vou começar agora.

Assumo a minha condição de Zé Ninguém, sem a mínima importância na roda do mundo, e partindo daí, garanto desde já, que este blog tem zero valor salvo para conhecer esta criatura, que, lá está, não tem qualquer importância. Mas vivendo num tempo de redes sociais, onde tantos anónimos julgam ser importantes, e onde os estúpidos reinam e prosperam, não terei o direito de me apresentar? Mais um anónimo estúpido não fará certamente qualquer diferença. Por isso, acredito que sim, que o mundo me poderá, no mínimo, tolerar. Porque, fica o aviso, não faço amigos com facilidade.

Com alguma coragem, abandonando esta concha de introversão e timidez que sempre me protegeu, parto olhando em silêncio, o velho do Restelo que fica para trás. Sim, esse silêncio que é minha marca registada e no qual encontro refúgio. Mas, fiquem desde já sabendo, que o que me falta em fluência oral, sobra-me em escrita. Absolutamente incapaz de fazer vídeos para o YouTube ou essa moda do Tico Teco, o caminho só podia ser este, mesmo sabendo que, atualmente, a leitura está em desuso para lá dos oito segundos.

Somos, todos nós, feitos de memórias, eventos, mágoas, arrependimentos. Somos frutos em constante maturação, á espera de ser colhidos. O que aqui vou escrever, sem rumo nem conteúdo programático definido, muito menos horários obrigatórios, sou eu. Os meus gostos e desgostos, a minha filosofia e princípios de vida, os meus amores, o meu humor pouco comum, os meus filmes, livros e músicas. As pessoas que importam, que foram importantes, os meus amores felinos. As influências entre as confluências das ciências. A mecânica quântica aplicada á vida humana, ao caos dos dias.

A nossas vidas, todas elas, davam um livro. Quantas vezes mais interessante, dramático e tenso que as vidas artificiais que nos servem a todas as horas em ecrãs desenterrados por mãos humanas, tantas vezes pequenas mãos que deviam estar ocupadas com um livro, e não enterradas na pobreza abjeta. Sim, eu sou muito assim: amo a humanidade com a mesma intensidade que a desprezo. Vivo assente em dualidades inconciliáveis, sendo esta uma característica básica desta criatura. Mas acredito que, cada ser humano é um filme, uma história que merece ser contada, lida, ouvida. Seja para muitos de vós ou para nenhum, é aqui que vou deixar parte de mim, para quem quiser. Sem desculpas.

 


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