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Abril é Amor

Nasci após 1974 e nunca vivi fora de um país livre. Miseravelmente, quando foi a altura de estudar esse período na disciplina de história, o ano letivo terminou e não houve tempo. E podia ter ficado por aqui, não fosse a minha curiosidade de gato, a paixão pela história e a necessidade de entender o país em que vivo. Por isso, fui estudar o antes, o durante, o após.

 

O antes era tudo aquilo que não quero para o meu país. Não era somente a ausência de liberdade para viver de acordo com as diferenças que cada um de nós tem; não era somente a pobreza a que eram votados os portugueses enquanto uma pequena elite usufruía de tudo; não era somente a ignorância a que esse povo era obrigado; não era somente os cuidados de saúde miseráveis que faziam da vida uma lotaria; não era somente pelo papel inferior e medieval ao qual as mulheres eram condenadas, só por serem mulheres; não era somente pela censura de informação que tudo corroía; não era somente pelo controle e vigilância políticos que a todos amordaçava; não era somente pelos campos de concentração e presos políticos em morte lenta. Era, acima de tudo, pela falta de futuro. Um buraco sem esperança, sem uma escada, uma condenação perpétua.

 

Por isso o 25 de Abril é Amor. Amor aos corajosos que tudo colocaram em risco nas suas vidas para libertar todo um povo que não tinha força para o fazer. Amor aos nossos pais, aos nossos filhos, aos nossos vizinhos, aos nossos desconhecidos concidadãos. Amor a um futuro que se concretizou num país moderno e livre, se bem que ainda delicado e cheio de problemas. Amor aos direitos e liberdades plenas para cada cidadão, independentemente de quem seja. Amor á solidariedade e tolerância presentes na nossa sociedade. Amor aos sonhos e ambições de gerações. Amor ás minhas filhas. Amor á esperança. Amor ao futuro hoje. Amor a Portugal.

 

Por isso, Abril de 74 é hoje e terá de ser sempre. E o véu escuro que neste momento se estende perante nós é lançado por forças de outros tempos que querem voltar ao passado. Vamos ter de lutar não apenas pelo sonho, mas pela liberdade dos nossos dias. Lutar contra o obscurantismo, contra os valores medievais que nos vão querer impor. Não tenham ilusões nem sejam cegos, pois eles saíram da escuridão e estão, porventura, sentados ao vosso lado. Na mesa do café. Nas redes sociais, certamente, a chafurdar nas mentiras e no engano.

 

Mas haverá sempre uma grande diferença entre os filhos da madrugada de Abril e estes dementors da vida real: nós não nos importamos como eles vivem a vida deles e eles têm os mesmos plenos direitos que nós. Podem até publicar livros saudosistas a exortar os “bons velhos tempos”. Mas o dia em que por cegueira ou ignorância nossa eles voltem a ter poder, não tenham ilusões: eles não vão permitir que aconteça o mesmo. Os vossos direitos e liberdades vão ser “comprimidos”, “ajustados”, “adequados”. Os nossos livros serão queimados. As nossas palavras suprimidas. As nossas imagens usadas contra nós. É essa a natureza do escorpião. Sempre foi assim.

 

Para concluir, deixo uma das minhas canções preferidas, Acordai, de Fernando Lopes-Graça sobre versos de José Gomes Ferreira

 




Acordai

Acordai

Homens que dormis

A embalar a dor

Dos silêncios vis

Vinde no clamor

Das almas viris

Arrancar a flor

Que dorme na raíz

 

Acordai

Acordai

Raios e tufões

Que dormis no ar

E nas multidões

Vinde incendiar

De astros e canções

As pedras do mar

O mundo e os corações

 

Acordai

Acendei

De almas e de sóis

Este mar sem cais

Nem luz de faróis

E acordai depois

Das lutas finais

Os nossos heróis

Que dormem nos covais

Acordai!

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