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Musica I – American Pie


“A long, long time ago

I can still remember how that music.

Used to make me smile”

 

De todas as expressões artísticas, a música é a que mais me toca. Desde muito pequeno sentia com intensidade a emotividade que uma canção traz, com a força das palavras e os mistérios encerrados em harmonias, entrelaçadas, nas ondas que nos acariciam os tímpanos. Infelizmente, a natureza providenciou-me com um par de ouvidos marrecos, que só com muito esforço são capazes de ler por entre os detalhes, de perceber as nuances, de ajudar a entender os mistérios.

Sou um filho da década de 70 cuja juventude foi vivida num tempo de declarado otimismo, mas mau gosto musical. Isto, lá está, segundo os especialistas na matéria. Que não mais aqui serão mencionados. Como qualquer forma de arte, o que importa é como o objecto artístico nos faz sentir. O resto, bem, o resto é que cada um sabe de si e nada mais importa. Na minha vida a música importa, e caminhei por entre tantos estilos, que me tornei um nómada que só se sente confortável na liberdade do que sinto.

 

“Oh, and there we were all in one place

A generation lost in space

With no time left to start again”

 

Cresci numa casa onde a música não abundava. Coisas havia, que eram bem mais importantes. Assim, quando o meu pai comprou uma coleção de cassetes áudio com os grandes êxitos da década de 70, aquilo foi um alimento musical para esta esfomeada criatura. Absorvi aquelas sonoridades distantes sofregamente, de forma a que ficaram marcadas para sempre, não apenas na memória, mas na sensibilidade. Quando me quero sentir confortável, viajo até essas velhas canções sem receios.

Uma das que mais me marcou, foi o êxito maior do trovador americano, Don McLean. A composição melódica e ritmada, aliada á épica duração (mais de 8 minutos!) e a uma letra misteriosa que ainda hoje em boa parte me escapa, tudo se conjuga numa das grandes referências musicais, não apenas do seu tempo, mas de gerações e corações vindouros. American Pie é única no seu conforto. Uma mensagem de outro tempo que vive nos ideários de muitos de nós. Perdida em terra de perdidos.

 

“And in the streets the children screamed

The lovers cried, and the poets dreamed

But not a word was spoken”

 

Estas palavras vivem comigo desde que a ouvi pela primeira vez, sempre presente em múltiplas ocasiões, a maioria delas em privado. Uma das canções da minha vida. Desde o pasto das ovelhas com o meu walkman até muitas noites passadas em claro, American Pie esteve lá. Uma amiga, distante, mas presente, silenciosa, mas sempre com uma mensagem, uma acompanhante de lágrimas e pensamentos de tristeza, de esperança. Mas sempre com uma resposta. São assim as grandes canções: moldam estados de espírito ao que precisamos, ao que procuramos e nos faz falta, mesmo sem sabermos.

É uma canção que não esconde a nostalgia, bem pelo contrário, atira-a descaradamente aos nossos corações que, intimamente, sabem que o passado foi bom, e que não volta mais. Há qualquer coisa de misteriosamente atraente nos dias inocentes da nossa infância e juventude, que nos parecem mais felizes do que os actuais. Talvez porque, para muitos de nós, foram de facto mais felizes, mas fundamentalmente, eram os nossos olhares inocentes que viam unicórnios, e não cavalos escravizados com cenouras.

 

“I met a girl who sang the blues

And I asked her for some happy news

But she just smiled and turned away”

 

Com o passar dos tempos, American Pie tornou-se o retrato de um tempo e lugar. A caricatura de um sonho perdido. A dura lembrança de dias mais alegres, cheios, longos, onde tudo parecia possível. Como nós, envelheceu, mas ao contrário de nós, não precisa de enfrentar a mortalidade perante os olhares que recriminam.

A liberdade de sermos quem somos tem um preço. A liberdade tem sempre um preço. Recordai, recordai, recordai o que vos deu a liberdade para serem quem são. Para ver, ouvir, sentir o que quiserem. Para mais tarde não chorarem, acordai.

 

“When I read about his widowed bride

Something touched me deep inside

The day the music died.”


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