No coração de Lisboa, um lamento
sobe a colina,
ecoando nos carris onde outrora o
riso descia.
O Elevador da Glória, testemunha de
passos que conduzia,
agora guarda silêncios entre sirenes
nas sombras do dia.
Flores ancoradas no ferro, nomes
sussurrados ao vento,
a cidade pára, por um instante,
para fotografar o momento,
em que de súbito, a parede se
desfez, e tudo se tornou vago,
a esperança desabando como um velho
fado amargo.
Somos frágeis como caixa de cartão,
um suspiro contido entre paredes de
ilusão,
navegantes de instantes,
passageiros do incerto,
riscando no tempo desejos por um
regresso certo.
Mãe chora filho, amigo procura
abraço,
no rumor das rodas, o pranto sem regaço.
O ar grita, a pedra treme, o aço
cede,
a vida desvenda como cedo se
despede.
Entre estrelas mortas e sirenes
tardias,
fica a pergunta suspensa nas outras
vidas:
porque se veste o destino de
ausência,
porque se torna tragédia a rotina
sem ciência?
Lisboa, veste de luto as ruas
inclinadas,
e nos azulejos, escrevem-se
saudades caladas.
No suspiro final do carril,
resta o abraço na confusão,
um tributo aos que partem,
na efémera travessia da condição.
Que cada passo seja registo,
que cada olhar lembre a lição:
vivemos à mercê do imprevisto,
e somos frágeis como cartão.
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