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Mensagens

Escolhas

  São asas de vento as escolhas lançadas, Cada gesto um pássaro a cruzar o céu aberto. Liberdade é jardim de portas entreabertas, Onde cada semente espalha, no escuro, o seu verso. Decidimos — e o lago vibra em círculos concêntricos, A água, espelho do mundo, reflete o toque e o querer. A ponte erguida por um sonho atravessa multidões, E, no eco do passo singelo, outros passos aprendem a nascer. Não somos ilhas: somos rios que se entrelaçam, Correntes que, escolhendo o leito, moldam margens e destinos. No sopro do livre-arbítrio, cada escolha desenha O mapa invisível de todos os caminhos. Ser livre é saber: nenhuma decisão é só nossa — É chama que, ao acender-se, ilumina horizontes partilhados. No gesto minúsculo, o universo dança, E cada liberdade engrandece o mundo habitado.
Mensagens recentes

Isa

  Raras são as estrelas que cruzam constelações de dor, Tecendo na pele a tapeçaria do tempo gasto. Suas lágrimas, orvalho que fertiliza jardins de esperança, Entre tempestades de doença, de amor e de fado. São navegantes de mares revoltos, Em barcos de papel que desafiam os temporais; Carregam no peito a alvorada — chama oculta — Que acende o riso mesmo em noites glaciais. Cada cicatriz é mapa de um continente submerso, Onde florescem lírios no leito árido do sofrer. A gratidão, ave rara, faz ninho nos galhos partidos, E canta alvoradas no silêncio do entardecer. Vivem de luz recolhida nos abismos E, mesmo feridas, ofertam girassóis ao dia. Transformam a dor em ouro líquido, Destilando esperança na taça da alegria.

Olympe De Gouges

Da série pessoal sobre pessoas que considero inspiradoras, não apenas pela sua influência e importância histórica, mas igualmente pela sua coragem e determinação, mesmo em face da morte. Igualmente importante, por conseguirem ver e alertar para o essencial no meio da manada furiosa que, tantas vezes são as sociedades humanas. Uma qualidade que muito precisamos nos dias que correm. Olympe de Gouges (1748–1793) foi uma das mais notáveis figuras do Iluminismo francês e pioneira na defesa dos direitos das mulheres. Nascida Marie Gouze em Montauban, adotou o nome Olympe de Gouges ao lançar-se no meio literário parisiense, destacando-se como dramaturga, escritora e ativista política. Em 1791, publicou a célebre "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã", onde reivindicava direitos civis, políticos e sociais para as mulheres, questionando os limites da igualdade proclamada pela Revolução Francesa (que proclamava os Direitos do Homem, mas somente para homens…). Além da luta ...

Elevador da Glória

  No coração de Lisboa, um lamento sobe a colina, ecoando nos carris onde outrora o riso descia. O Elevador da Glória, testemunha de passos que conduzia, agora guarda silêncios entre sirenes nas sombras do dia.   Flores ancoradas no ferro, nomes sussurrados ao vento, a cidade pára, por um instante, para fotografar o momento, em que de súbito, a parede se desfez, e tudo se tornou vago, a esperança desabando como um velho fado amargo.   Somos frágeis como caixa de cartão, um suspiro contido entre paredes de ilusão, navegantes de instantes, passageiros do incerto, riscando no tempo desejos por um regresso certo.   Mãe chora filho, amigo procura abraço, no rumor das rodas, o pranto sem regaço. O ar grita, a pedra treme, o aço cede, a vida desvenda como cedo se despede.   Entre estrelas mortas e sirenes tardias, fica a pergunta suspensa nas outras vidas: porque se veste o destino de ausência, porque se torna tragédia a ...

A eternidade do adeus

  No silêncio onde o tempo se dissolve Ecoa um nome que nunca se apaga, É aurora nas pálpebras da noite, Chama secreta que insistente alaga. Teus passos ainda dançam sobre a relva E os dias, mesmo mudos, te procuram. No limiar do sonho, a tua ausência É presença que nunca se acura. A eternidade é feita deste instante Em que o amor se ergue, desamparado, Na alvorada onde a saudade é ponte Entre o perdido e o lembrado. E, se imortal é tudo o que amamos, Por que a dor se faz tão persistente? O que permanece é sombra e é luz, É rosto etéreo, abraço ausente. Navego em mares onde o tempo é ferida, Buscando ilhas onde tu repousas, Mas sei que a alma, mesmo partida, Guarda joias, memórias tão preciosas. Assim, sobrevivo ao fogo da ausência, Urna de amor, cinza e claridade. Pois quem perdeu, renasce em esperança, Na eternidade breve da saudade.

Palestina

  Palestina   Entre escombros, pousada a solidão, Vaga uma criança, trémula, cansada, No olhar, o mar — promessa desenhada Por trás de muros, cinza e devastação.   Na mão, a boneca — trapos de afeição, Vestígios doces de uma vida passada. O vento sussurra, brisa amordaçada, Histórias soterradas no coração.   Sobre a cidade morta, cresce o sonho De águas azuis, de um riso medonho De liberdade, onde o medo não cabe.   E a menina espera, quieta e pequena, Que o mar lhe devolva, entre a dor amena, A esperança, bordada na alva da tarde.
  Palestina   Entre escombros, pousada a solidão, Vaga uma criança, trémula, cansada, No olhar, o mar — promessa desenhada Por trás de muros, cinza e devastação.   Na mão, a boneca — trapos de afeição, Vestígios doces de uma vida passada. O vento sussurra, brisa amordaçada, Histórias soterradas no coração.   Sobre a cidade morta, cresce o sonho De águas azuis, de um riso medonho De liberdade, onde o medo não cabe.   E a menina espera, quieta e pequena, Que o mar lhe devolva, entre a dor amena, A esperança, bordada na alva da tarde.